Incompatibilidade RH: Negativo, positivo

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Incompatibilidade RH: Negativo, positivo
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ImageDiana faz hoje um mês, mas ainda mal teve tempo de habituar-se à sua nova casa. Passou as primeiras três semanas de vida na maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. Nasceu com icterícia e níveis preocupantes de anemia. Os primeiros dias viveu-os entre incubadoras, sessões de fototerapia com raios ultra-violeta, colheitas de sangue e ameaças de transfusão. A genética pregou-lhe uma partida.

A bebé é filha de Ana Tão, 28 anos, tipo de sangue ARh negativo, e de Luís Marques, 31 anos, ARh positivo. A diferença entre ambos é que os glóbulos vermelhos dele possuem uma proteína chamada RhD, que não existe no sangue de Ana. Se o sangue de Diana fosse do tipo Rh negativo, como o da mãe, não haveria qualquer problema. Mas Diana herdou o sangue do pai.

Durante a gravidez, o sangue do feto atravessou a placenta para a circulação da mãe. «Acontece em 75 por cento dos casos», diz a obstetra Lisa Ferreira Vicente, do serviço de Medicina Materno-Fetal da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Bastam 0,1 mililitros de sangue RHD+ para iniciar a incompatibilidade. O organismo de Ana detectou a presença de um elemento estranho, a proteína RhD, e sentiu-se obrigado a reagir. O sistema imunitário da grávida criou anticorpos de defesa e foi reforçando as suas munições até garantir um exército capaz de atravessar a placenta e chegar ao sistema circulatório do feto. O resultado do ataque destes anticorpos, lento mas concertado, nunca afecta a mãe.

Mas pode criar várias perturbações ao bebé, mesmo antes de nascer. Os médicos conhecem bem o problema. Chamam-lhe eritoblastose fetal ou neonatal ou, mais simplesmente, Doença Hemolítica do feto ou do recém-nascido. Diana sofreu icterícia e anemia após o nascimento. Nos casos mais graves, a doença pode levar à morte do feto ou assumir a forma de insuficiência cardíaca no bebé.

Os riscos existem em qualquer gravidez resultante do cruzamento de um tipo de sangue Rh negativo da parte da mulher com o factor positivo do progenitor masculino. A probabilidade de o bebé herdar o sangue do pai é de 75 por cento. Mas casos como o de Ana Tão, que teve problemas com o primeiro filho, são muito raros. Acontece uma vez em cada cem.

Regra geral, os anticorpos aparecem tardiamente durante a primeira gravidez, não chegando a causar problemas. Ficam, no entanto, memorizados no organismo da mãe, prontos para reaparecer a cada novo contacto sanguíneo. Por isso, é normalmente na segunda gravidez que surgem anticorpos com força suficiente para atravessar a placenta e entrar no sistema circulatório do feto para destruir os glóbulos vermelhos.

Prevenir é o melhor remédio A medicina conhece registos grosseiros de incompatibilidade sanguínea entre uma mãe e o seu filho desde o século XVII. O problema originou abortos e mortes à nascença durante séculos. Mas só a partir da década de 60, já no século XX, a prevenção entrou na rotina dos médicos. Sob a forma de administração de imunoglobulinas anti-D à mãe, com o objectivo de destruir e apagar a memória dos anticorpos no organismo da mulher.

Com uma simples injecção intramuscular evitam-se complicações graves. E isto pode até ser feito antes do nascimento do bebé, à 28ª semana. Foi assim com Luísa Rodrigues, de 32 anos. Portadora de sangue do tipo Rh negativo, Luísa teve uma filha que se revelou Rh positiva, em 2003. «Avisei o médico do tipo de sangue do pai. Mas ele descansou-me muito.

Disse que hoje em dia já não era uma questão grave», conta. Luísa levou uma injecção profiláctica à 28ª semana e quando a filha Marta nasceu em Coimbra, em Junho, recebeu uma nova dose de imunoglobulinas. «A indicação do meu tipo de sangue estava assinalada a vermelho na cédula da grávida. Quando a Marta nasceu e viram que a bebé era RH positiva deram-me a injecção no dia seguinte», diz.

O caso de Luísa não levantou grandes dúvidas aos médicos. Contudo, a profilaxia antes do nascimento exige uma avaliação cuidada. Se a mãe já possui anticorpos, a administração das imunoglobulinas pode fortalecê-los e acelerar todo o processo.

Para determinar o momento e a pertinência da profilaxia existe um exame específico. Chama-se Teste de Coombs Indirecto, pode ser feito variadas vezes durante os nove meses de gestação, e tem como objectivo verificar se houve trocas de sangue entre a mãe e o feto. Na posse dessa informação, os médicos registam a presença de anticorpos no organismo da mãe e avaliam a sua capacidade de afectar o bebé.

Ana Tão estava grávida de 20 semanas quando ficou claro que os seus anticorpos poderiam prejudicar o desenvolvimento da Diana. Estava imunizada, já não poderia receber a injecção da 28ª semana. Passou a ser seguida na maternidade quinzenalmente. Através de um ecodoppler (uma ecografia) da artéria cerebral do feto, os médicos conseguiam perceber o grau de anemia de Diana e avaliar os riscos e a necessidade de provocar o parto e acelerar o seu nascimento.


A bebé aguentou-se bem até às 36 semanas. Não foi necessário recorrer a uma transfusão de sangue intra-uterina, com algum alívio da mãe. Em caso de anemia grave, é hoje possível socorrer o bebé com uma dose extra de sangue ainda antes do seu nascimento. Mas o procedimento é considerado invasivo e não podem ser excluídos os riscos de morte do feto.

Diana nasceu no dia 26 de Dezembro, com 2,660 quilos. Dispensou a transfusão de sangue que tinha sido preparada para o caso de precisar de novos glóbulos vermelhos. Mas os níveis de icterícia e anemia que apresentava determinavam uma apertada vigilância. Foi internada na Unidade de Cuidados Intensivos sob o olhar atento de médicos e da mãe, que não teve qualquer complicação no parto.

Hemorragias, abortos e amniocenteses
A administração de imunoglobulinas ¿ ideia-chave da prevenção - é essencial na 28ª semana e depois do parto, mas não só. Também é indispensável que ocorra nas 72 horas depois de a grávida fazer uma amniocentese ou qualquer outro procedimento invasivo, em caso de hemorragia ou na sequência de um aborto espontâneo ou provocado. «É muito importante que as mães saibam isto», sublinha a obstetra Lisa Ferreira Vicente. «Muitas mulheres criam anticorpos em gravidezes que terminam em aborto ¿ espontâneo ou provocado - e em que não fazem prevenção com imunoglobulina», explica.

O conhecimento do historial da grávida e do tipo de sangue do pai da criança são importantes para que os médicos possam fazer o seu papel o melhor possível. O que, nestes casos, quer dizer antecipar os problemas. A chamada medicina preventiva tem tido uma importância crescente na alteração da incidência e curso de algumas doença. E a injecção de imunoglobulinas é um bom exemplo disso mesmo.

A descoberta é o principal responsável pela descida da prevalência da hemolítica fetal ou do recém-nascido para os níveis actuais. «Antes, 15 por cento das grávidas tinham problemas. Depois do procedimento ter sido introduzido nas rotinas médicas, o número desceu para dois por cento. Se a isto acrescentarmos a profilaxia durante a gravidez, o risco fica reduzido a 0,2 por cento», informa Nuno Montenegro, presidente da Comissão de Medicina Materno-Fatal da Ordem dos Médicos, professor universitário e ex-responsável do serviço de Obstetrícia no Hospital de S. João do Porto. Um número que significa para as grávidas vigiadas um perigo quase nulo.


Como tudo acontece
1. Mulher Rh negativa com filho Rh positivo.

2. As células Rh positivas do feto entram na circulação sanguínea da mãe. A mãe fica imunizada: formam-se anticorpos para destruir as células Rh positivas.

3. Após a gravidez, a mulher permanece com a memória desses anticorpos.

4. Na gravidez seguinte, se o feto é Rh positivo, a mulher volta a produzir anticorpos, desta vez capazes de atravessar a placenta e destruir as células Rh positivas no feto.

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